Violência e Economia

Por Wolney Dias – Cel PM – Comandante-Geral

Em período de crescimento, reduzimos a taxa de homicídios para 28,7 em 2012.  A partir do ano passado, no entanto, os homicídios voltaram a ter trajetória de alta

Historicamente, os indicadores de violência acompanham o desempenho da economia. Embora seja impossível quantificar essa constatação com números de ciência exata — tal a quantidade de variáveis em jogo —, podemos afirmar que nas crises econômicas, como a atual, a violência se expande. E, pior, quando a violência se expande, empurra para baixo a economia, produzindo um ciclo desastroso para toda a sociedade.

É possível observar esse cenário nas últimas quatro décadas. O primeiro grande boom de violência foi vivido no estado nas décadas 1980 e 1990, período em que se registrou um forte esvaziamento no setor industrial, especialmente na Zona Norte carioca — Penha, Bonsucesso, Benfica, Caju, Jacaré e outros bairros. Grandes empresas fecharam e deixaram para trás edificações e terrenos, que, em seguida, serviram para expansão de favelas. A ocupação desordenada do solo, por sua vez, agravou a violência. Em 1994, a taxa de homicídio chegou a 64,8 por cem mil habitantes, um recorde da série histórica.

Na primeira década do novo século, os indicadores tanto da economia quanto da violência começaram a se reverter. Beneficiado pelo preço das commodities no mercado internacional, o país se expandiu, houve grandes investimentos em infraestrutura e uma vigorosa política de inclusão social. O Rio de Janeiro, com a expansão da indústria do petróleo, viveu um momento muito especial. Nesse período de crescimento, conseguimos reduzir a taxa de homicídios para 28,7 em 2012. A partir do ano passado, no entanto, os homicídios voltaram a registrar trajetória de alta.

Não cabe aqui discutir se demoramos a nos preparar para enfrentar as consequências da crise financeira internacional, que explodiu nos EUA em 2008 e espalhou-se rapidamente pela Europa e mercados da Ásia. Mas não há dúvida de que a quebra de Wall Street é um dos fatores determinantes da recessão brasileira. E hoje pagamos um preço alto, com mais de 13 milhões de desempregados. Se observarmos as curvas da série histórica dos homicídios no estado, entre 1991 e 2016, é possível estabelecer um paralelo com a economia.

O Rio foi o estado mais prejudicado com a queda vertiginosa da indústria do petróleo, seu maior ativo econômico. No curto prazo, as consequências da crise na segurança são evidentes, com a perda de homens e equipamentos. Para citar um exemplo, deixamos de contar, por falta de recursos, com um reforço diário de 600 policiais que eram pagos pelo programa Regime Adicional de Serviço (RAS).

No médio e longo prazo, temos um desafio muito grande para impedir que novas áreas da região metropolitana — como Itaboraí, Xerém, Itaguaí — virem grandes favelas, como aconteceu há 20 anos na Zona Norte carioca. O governo do estado vem atuando com determinação para equacionar o impasse financeiro, como medida emergencial. E, em seguida, criar mecanismo de recuperação da crise, diversificando a economia com investimentos em serviço, infraestrutura e meio ambiente, além da retomada de setores tradicionais como a indústria naval.

Nesse complexo quadro socioenômico, não podemos deixar de enaltecer o trabalho das forças de segurança do estado, em particular dos policiais militares. Apesar de todas as dificuldades financeiras e materiais, nossa tropa não perdeu o entusiasmo de cumprir o lema da corporação: “Servir e proteger”.

Wolney Dias Ferreira é comandante-geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro

Opinião, O Globo
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